quarta-feira, 6 de abril de 2016

CRÍTICA #7 – THE LOBSTER (2015)


Sinopse: Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de sua preferência e soltos no meio da Floresta. Neste contexto, um homem se apaixona em plena floresta - algo proibido, de acordo com o sistema.

Sabe aqueles filmes bizarros, que contam uma história maluca, mas cheia de significados? Aqueles, situados em um universo próprio, simbólico, mas completamente crível? Pois é, The Lobster, o vencedor do Prêmio do Júri do badalado Festival de Cannes de 2015, é mais um deles, mas com brilho próprio e texto único.

O principal mérito dentre os vários da película se encontra no seu roteiro, assinado pelo diretor grego Yorgos Lanthimos em parceria com seu costumeiro colaborador Efthymis Filippou, que aborda habilmente os relacionamentos amorosos, sua supervalorização na sociedade e a consequente artificialidade dos vínculos emocionais. De tabela, ainda cutuca a alienação e massificação popular e a polarização dos grupos extremistas (que, na verdade, são um, o espelho do outro).

O texto também é muito perspicaz em criar um mundo distópico totalmente crível (o que também é mérito da direção de arte, principalmente do design de produção e do figurino uniformizado), bem como em fornecer as informações necessárias à trama de maneira gradativa, sem os mal escritos diálogos expositivos que tão comumente abarrotam os filmes. Nesse sentido, até a narração é bem utilizada.

As decisões criativas por parte da direção também são acertadíssimas. Um dos exemplos é o uso o recurso da câmera lenta e de tomadas quase congeladas em momentos belíssimos. Além disso, o Lanthimos fornece ao público enquadramentos bastante simétricos (o que, de imediato, associei a Wes Anderson) e captura os espaços com uma grande profundidade de campo.

O elenco está ok: Colin Farrell não oferece grande presença, mas realiza um trabalho correto; Rachel Weisz, como sempre, apresenta muito talento e interpreta a narração otimamente; Léa Seydoux cria uma personagem firme, mas que não tem espaço para brilhar; e Ben Wishaw e John C. Reilly estão excelentes em seus personagens na tangência do caricatural.

Tecnicamente a projeção é bastante interessante, a começar da trilha sonora, que merece destaque. Ela é baseada em poucas notas, tocadas em tons crescentes, criando uma estranheza desconcertante (principalmente quando aliada ao que se vê na tela). Certamente está entre as músicas mais entranhas que já vi em uma película.

Vale a pena serem citadas ainda a edição e a cinematografia do longa. A primeira é rápida e suave na mesma medida, criando uma sensação de naturalidade nos momentos mais brutais. Já a segunda, saturada para cores opacas e frias (como o amarelo, o verde musgo e o cinza), contribui com a ideia de mecanização e com a morbidez do filme.

Apesar de diversas qualidades, a película possui pequenos deslizes. Talvez o maior deles seja a ausência de vínculo emocional sentida pelo espectador - o que não deixa de ser compreensível, tendo em vista a proposta racional e, em certos momentos, violenta do longa (cheguei a lembrar de Michael Haneke e Lars Von Trier em algumas cenas). No entanto, o amor entre o protagonista e a personagem de Rachel Weisz não é sentido (aliás, os dois tem pouca química juntos).

Outros dois problemas (bem subjetivos, eu confesso) são o ritmo do filme, que nem sempre é regular (devido à história não ser tão interessante em sua segunda metade), e poucos pontos que não ficam tão claros dentro da trama (Aviso de spoiler: todos os “solitários” tornaram-se assim devido à aversão pelo sistema social? Para que eles faziam tantas missões secretas? Eu não entendi essas questões).

The Lobster não é um filme para todos, mas que vale muito a pena ser visto. Assim como “Ela” e “Quero Ser John Malkovich”, é um trabalho estranho, mas rico em conteúdo. Que mais bizarrices como essa surjam, pois Cinema diverte e emociona, mas, uma vez que é arte, também tem o poder de fazer pensar.
 9.5

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