quinta-feira, 14 de abril de 2016

CRÍTICA #10 - SÉRIE THE KNICK


É muito difícil imaginarmos a sociedade sem a tecnologia, mais difícil ainda imaginá-la sem eletricidade, a situação fica ainda pior quando imaginamos serviços essenciais, como a medicina, sem as condições mínimas para executar sua atividade, dentro dos nossos parâmetros atuais.

Pois é, The Knick é uma série que vai mostrar o crescimento da medicina, tanto com relação ao procedimento, quanto aos equipamentos, estrutura e pensamento. Mas a série, que se passa non ano de 1900, tem uma linguagem própria do seu tempo, de maneira que a série vai demonstrar o pensamento da sociedade nessa época.


Temas como racismo, machismo, vícios, estratificação social, entre outros de extrema relevância, são abordados na série. Entretanto, diferentemente de novelas globais, os temas são tratados com a naturalidade de quem pensa e fala no início do século passado.

Um ponto forte da série são os personagens complexos a quem somos apresentados. Você facilmente irá identificar traços de vilania, mas ao mesmo tempo de mocinho, em diversos personagens, por exemplo, o protagonista da série (com a licença hermenêutica, já que "The Knick" é o apelido carinhoso para o hospital em que se passa a série), o Dr. John Thackery, num dado momento é um grande herói, por ser um gênio da medicina, com dedicação integral, que luta até o limite da perfeição pelo bem dos seus pacientes. Em outro momento ele é alguém arrogante e racista.

A série também não busca trazer características messiânicas aos personagens. Diferentemente de séries como House, o nosso cirurgião erra. O protagonista não é um gênio perfeito, aliás, perfeição passa longe dele. Além de sua falibilidade já comentada, ele é padece do vício em cocaína, fruto de suas experiências médicas.

The Knick toca de maneira muito real no tema preconceito, completamente desprovida de pudor ao tratar de temas tão sérios e polêmicos. Nela temos um médico prodigioso, mas que tem um grande "defeito", segundo a sociedade de sua época, é negro. Contudo, quando muitas séries focariam nesse tema de maneira dramática, da dor e sofrimento de quem é alvo de preconceito, ela resolve tratar com a naturalidade que só os que passaram por isso devem saber. Algo cruel, não por ser criminoso, mas cruel pela indiferença da sociedade da época, que aceitava como verdade incontestável a diferença entre raças "não caucasianas". É importante frisar que falo "raças não caucasianas", pois os negros não eram os únicos que sofriam preconceito, as mulheres, por exemplo, não podiam ocupar cargos como médicas, os asiáticos eram vistos como os hospedeiros das moléstias da época, entre outros.

A direção da série é fabulosa. Perfeita! O diretor ganhador do Oscar (Traffic), Palma de ouro em Cannes (Sexo, Mentiras e Vídeotape) e Emmy (Behind the Candelabra), Steven Soderbergh, resolve adentrar no ambiente das séries, e imprime um trabalho memorável como diretor e diretor de fotografia. A série se distingue muito do que é produzido atualmente, prezando pela câmera tremida, a baixa iluminação e tons acinzentados e em sépia, a série nos coloca num ambiente frio e macabro, de trevas, e nesse ponto fazendo menção às trevas da ignorância e do medo de quem é vítima tanto da sociedade quanto do vício. Uma fotografia que facilmente nos lembra do filme "A lenda do Cavaleiro sem cabeça", é um trabalho esplendoroso.

A trilha sonora é um caso à parte. Ela causa uma sensação de medo, furor, agonia e tristeza como poucas. A trilha principal baseia-se em toques eletrônicos, mostrando o ar futurista em meio ao passado. Mas isso só abrilhanta o incrível trabalho, pois mostra que tudo foi detalhadamente pensado. Uma menção especial à trilha sonora do último episódio da primeira temporada, percebemos a agonia dos personagens através das cenas onde escuta-se apenas as músicas tenebrosas. Sensacional!!

O trabalho de maquiagem é incrível. A série mostra sem receio as dilacerações, os cortes e as feridas, que ficam realmente muito reais, causando até um mal estar para quem não está muito acostumado.

As atuações são excelentes. Clive Owen faz o melhor trabalho da sua vida, na pele do nosso protagonista. Atores secundários também se destacam, apesar dos personagens terem atuações contidas, sem grandes alardes ou cenas que propiciem um destaque a eles.

É importante salientar que, com o passar do tempo, a série vai ficando ainda melhor.

The Knick é uma série envolvente, que, apesar de não ser um procedural, traz em todos os episódios casos que vão exigir dos médicos e vão nos causar tensão e ansiedade. É uma série primorosa em seus aspectos técnicos, uma fotografia marcante, uma direção peculiar e atuações incríveis. É uma série relevante e que merece muito ser vista.

FABIANO BRONZEADO



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