Um dos filmes existencialistas mais incríveis que já assisti. Isso define bem o que penso a respeito do filme "Anomalisa". Um filme que, dentro de uma história, aparentemente, linear e corriqueira, a qual, para a grande massa acostumada a assistir filmes mastigados e devidamente alocados em seu cérebro, vai julgá-lo como um filme paradão e sem história. Mas, lembre-se do que disse, "aparentemente".
O filme Anomalisa traz uma abordagem de temas extremamente importantes para a construção do pensamento da humanidade. Duvida? Os primeiros filósofos gregos, os chamados filósofos da natureza ficavam horas e horas observando a natureza e buscando a resposta sobre os maiores questionamentos da humanidade, dentre esses pensamentos, qual o princípio que une todas as coisas? Tudo é água. Tudo é um!
Essa resposta trazida a séculos e séculos atrás nos deixou engasgados. Se tudo é um a vida pode ser demasiadamente previsível e monótona. Posteriormente, foi-se amplamente discutido a respeito da justiça, liberdade, essência do homem, racionalismo, ceticismo, existencialismo. Mas o fato é: o homem é sempre parte dos seus próprios questionamentos. O homem é remetente e/ou destinatário de todo o seu empenho pelo conhecimento.
Mas, o que verdadeiramente somos? O que é ser humano? O que é a vida? Qual o sentido da vida?
Certamente não darei respostas como essa nesse texto, no entanto, tenho absoluta certeza que tais perguntas já se passaram por sua cabeça.
O diretor do filme objeto dessa análise, Charlie Kaufman, é um grande realizador na construção (ou desconstrução) da alma humana em seus filmes. Incontestavelmente grande roteirista, que escreveu filmes como "Brilho eterno de uma mente sem lembrança", "Adaptação" e "Quero ser John Malkovich". Nesse seu mais recente filme ele continua a fazer o que faz de melhor.
Em Anomalisa temos um homem de meia idade, visivelmente abatido pela monotonia de sua vida, que pode ser percebida logo no começo da película, em seu andar desolado ou em seu total desinteresse em conversar com um animado taxista que tenta convencer-lhe a conhecer a bela cidade em que o protagonista acabara de chegar.
O enredo do filme é simples. Um homem, palestrante motivacional sobre atendimento, faz uma viagem de trabalho para dar uma palestra. Nessa curta viagem, de apenas um dia, ele se depara com uma realidade completamente inesperada, que põe em dúvida seu futuro.
Um dos piores estágios da existência humana é a apatia, pois no estado de extrema tristeza o indivíduo ainda tem possibilidades de mudança, visto que a realidade ainda dói. Na apatia é como se adormecesse a parte mais importante do nosso ser: nossa alma. É isso que vemos em Michael Stone, nosso protagonista. Para ele a vida não só é sem sentido, como é previsível e igual. Para ele tudo é um, ou melhor, tudo é a mesma coisa. Não há graça, como também não há tristeza. Não há virtudes ou defeitos. Não há realizações ou frustrações. A vida é só um monte de coisas que se resume a uma, que não tem valor algum. Um tudo sem significado.
Dentro dessa perspectiva, o nosso protagonista leva a sua vida. Em seu trajeto para o hotel, o taxista, que já apresentei a vocês, fala animadamente sobre sua cidade, com suas belezas e particularidades. Ele fala com prazer, em total antagonismo a Stone. Ele vê sentido nas coisas. Que a vida é bela, pois sua cidade também é bela. Que na vida não é tudo a mesma coisa, pois sua cidade é diferente. Sua vida é diferente. Temos aqui o primeiro confronto à apatia do protagonista.
Ao chegar em seu quarto de hotel, temos uma grande representação do interior do protagonista. Um quarto aparentemente confortável, mas sem traços que o distingam de tantos outros, afinal é só um quarto de hotel, um quarto grande mais que aloja um homem só, com suas ideias, com seus pensamentos, sentimentos. Sozinho em sua apatia. Chama-nos a atenção o telefone do quarto de hotel, que, quando Michael vai utilizá-lo para pedir uma comida, ele se depara com várias opções, mas que todas levam à mesma coisa. Reafirmando o sentimento do protagonista de que a vida pode ter vários caminhos, mas todos levam ao mesmo lugar.
O que mais chama atenção no espectador é que todos os personagens, exceto Lisa, têm a mesma voz. O que nos passa a ideia que, no mundo, em meio à infinidade de coisas não conseguimos identificar as particularidades. Tudo soa muito igual.
Mas, como diz a canção, "enquanto houver sol, ainda haverá...". Como quem de repente houve essa canção, o nosso protagonista reacende a chama pelo significado da vida. Ele entra em contato com um antigo caso seu, marcando um encontro rapidamente para o bar do hotel em que está hospedado. Michael passa a lembrar de como ela era a alguns anos, quando a vira pela primeira vez. Ele cria grandes expectativas sobre esse encontro. No entanto, quando ela chega, ele vê que ela não é mais a mesma, seja fisicamente, seja psicologicamente. Ele vê que ela já passou por muitas experiências nesse tempo que a fizeram mudar. De fato, somos seres que estamos em constante mudança, não pela nossa falta de personalidade definida, mas porque vivemos e aprendemos com a vida. O tempo não traz só rugas, mas traz experiência, maturidade. As experiências deixam marcas no nosso corpo, mas também em nosso interior.
Após seu frustrado encontro com seu ex-caso, ele encontra duas mulheres, uma muito segura de si, bonita, com aparência de conquistadora; e outra mais tímida, insegura consigo mesmo e com sua aparência, como quem vive nas sombras da amiga que é sucesso entre os homens. E, por acaso do destino (ou não), Michael é magnetizado pela mulher mais insegura, Lisa. Aqui temos o início de uma grande desconstrução do homem apático.
Michael, que não queria perder a oportunidade de perder aquela que poderia ser a pessoa mais importante de sua vida, aquela que poderia finalmente trazer algum significado para sua vida. Com muita confiança, ele a convida para o seu quarto, o que é aceito por ela.
No quarto temos algumas das cenas mais bonitas da história do cinema. Inicialmente eles conversam. Ele visivelmente se apaixona por Lisa, que no filme tem uma voz diferente das outras, ou melhor, a única voz diferente, o que mostra que ela era diferente de todo o resto. Que ela fazia e trazia sentido para Michael. Aproveitando o lugar e clima em que estavam, eles protagonizam uma das cenas de sexo mais bonitas da história do cinema, pois soa tão natural, tão imperfeito... Isso mesmo, eu disse "imperfeito", pois a beleza da natureza humana está na imperfeição, que é aquilo que mostra que não somos robôs, programados para tomar as atitudes previamente calculadas com perfeição, mas somos humanos. Temos sentimentos. Temos insegurança. Temos medo. Temos amor. Temos muito amor (ou devíamos ter).
Carinhosamente apelidada de Anomalisa, por ser anômala (diferente) e chamar-se Lisa, o protagonista demonstra que ela é o que ele procura. Algo diferente em meio a tudo igual. A anomalia que quebra um universo composto de seres idênticos sem identidade.
Como a Cinderela que teve um sonho que durou até a meia noite, o nosso protagonista acorda para o café da manhã, e finda com seu mundo mágico. Eles conversam a respeito do futuro, e ele passa a escutar as opiniões, conhece o seu jeito, as preferências de Lisa, e começa a perceber que ela não é a mulher dos seus sonhos, pois sonhos não são reais. Michael identifica nela traços característicos, e isso era tudo que ele não queria. Nosso protagonista buscava por peculiaridade, por algo com significado, diferente do resto do mundo, mas aí a voz dela passa a soar como todas as outras, ela passa a se mostrar como mais uma desse todo cheio de nada, segundo pensava e sentia Michael.
No último ato temos o nosso protagonista voltando para sua casa, sem mudanças ou novidades, apenas um pai de família de meia idade que retorna a seu lar, sua esposa e seu filho. Nada mudou.
Não são apenas mudanças que trazem sentido à vida, pois tudo depende da ótica que temos a respeito dela. Muitas vezes o problema da falta de sentido das coisas não estão nelas, mas em como as enxergamos.
Não são apenas mudanças que trazem sentido à vida, pois tudo depende da ótica que temos a respeito dela. Muitas vezes o problema da falta de sentido das coisas não estão nelas, mas em como as enxergamos.
A vida é curta, Carpe diem. O sentido da vida é viver.
FABIANO BRONZEADO

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