Imagine-se na situação de alguém que descobre que toda a sua concepção sobre o mundo é uma mentira, ou melhor, apenas uma micro parte de um todo que fora omitido. Imagine que antes você conhecia tudo sobre a realidade em que você vive, cada canto do seu mundo, cada ser, cada objeto, e, repentinamente, sua realidade é confrontada e comprovadamente ínfima diante da grandeza do mundo de verdade.
Isso é o que acontece com o nosso protagonista. No filme o quarto de Jack temos uma demonstração de que nós somos o reflexo da nossa perspectiva sobre o nosso mundo, pois nossa vida nada mais é do que parte desse todo chamado universo, e, nossas grandes crises de identidade não são fruto de um confronto meramente interior, mas sim, desse confronto interior com a realidade externa, pois, certamente, ela reflete em nossas emoções, conceitos, desejos e atitudes.
No filme o quarto de Jack vemos um conceito de família muito comum em nossa realidade atual: Uma mãe e seu filho. No entanto o panorama em que estão colocados foge de qualquer convenção humana sobre normalidade. Uma simples e corriqueira situação que destrói o futuro de uma jovem. Joy, mãe de Jack, ao tentar ajudar um jovem senhor, é sequestrada pelo mesmo e encarcerada dentro de um quarto. Aqui não temos mais uma amostra de crime, visto que não é essa a abordagem principal do filme, mas temos uma vida que passa a viver como um objeto, um ser que perde sua identidade, ou que forçadamente tem que se transformar. Nesse momento, é necessário lembrar da icônica frase do então Anakim Skywaker, que ainda como uma criança vivendo em meio à escravidão com sua família diz: “Eu não sou um escravo, eu sou gente!”. O que é ser gente? O que é ser humano? O que é ter vida? Essas são algumas das perguntas que essa película te faz pensar.
Joy perde aquilo que é mais precioso que temos: a liberdade. Liberdade essa lutada pelos “rebeldes” que derrubaram a bastilha; liberdade gritada por aqueles atingidos pela Lei áurea; liberdade disputada à faca e balas e banhada a sangue em meio à guerra civil americana; liberdade que fez um grande grupo de negros e brancos caminharem até a cidade de Selma; liberdade sonhada; liberdade que nos fez pintar a cara; liberdade cantada, conquistada, vivida; e, para Joy, perdida.
Você pode questionar: “Por que a liberdade é tão preciosa?”, eu te respondo, porque quando perdemos a liberdade perdemos não só direitos estabelecidos pela nossa constituição, mas perdemos também, e principalmente, nossa identidade.
Sem ela, a mãe do amado Jack passa não mais a viver, mas a sobreviver, e para um sobrevivente sua luta não é por direitos, mas pela vida, pela chance de respirar e comer por mais algum tempo, pela chance de manter o fagulha de esperança ainda acesa. E é isso que ela faz, quando seu algoz, o criminoso que a colocou presa nesse quarto a obriga a ser seu objeto. Ela cede a esse homem, desfazendo-se de todos os seus desejos, conceitos e valores, com o intuito de permanecer sobrevivendo.
Em meio a essa sobrevida ela recebe o seu maior presente, o seu filho, que nasce em meio ao tormento, mas que, como uma das mães mais sensacionais demonstradas no cinema, tenta fazer dessa realidade o mínimo dolorosa para seu filho. É importante mencionar a emocionante história do pai que tem a mesma atitude com o seu filho em meio à segunda guerra mundial, dentro do campo de concentração, no filme “A Vida é Bela”, que nos mostra que a beleza da vida depende da nossa ótica, e que, o melhor da vida é embelezar a vida para outro.
Jack nasce nesse ambiente tenebroso, e, para conseguir seu objetivo de minorar os danos para seu filho, Joy cria uma realidade para seu filho, ensinando-o que o mundo se resumia ao quarto em que eles viviam, e que, aqueles que apareciam na televisão que possuíam eram seres que não existiam de verdade. Então, para Jack, os limites do mundo ele conhecia muito bem, tanto é que se relacionava com o que estava nesse lugar, de maneira a cumprimentar com um bom dia a pia, a privada e outros objetos.
Certo dia, em meio a questionamentos de seu filho, ela percebeu que não seria possível sustentar essa ideia para seu filho, que num dado momento ele questionaria mais, e mais, e ela não saberia responder. Ela percebeu que seria um grande egoísmo de sua parte não tentar a liberdade do seu filho, por mais impossível que parecesse. Que melhor seria tentar do que carregar por toda a vida o sentimento de culpa por não ter tentado, bem como omitido tudo sobre o que ela sabia para seu filho. Com isso, ela resolve tentar.
A tentativa de fuga para seu filho foi extremamente arriscada, pois qualquer detalhe que desse errado poderia trazer consequências terríveis. Foi também dolorosa, pois culminou numa despedida que poderia muito bem ser definitiva. Contudo, a sétima arte pode proporcionar isso para nós, tudo deu certo, e ainda melhor, pois ela também obteve a liberdade.
O que fazer quando conseguimos a liberdade que tanto lutamos para obter. O filósofo Sartre nos diz que “Somos condenados a ser livres”, mostrado que é um grande problema não ter liberdade, mas a liberdade também nos traz o problema de saber o que fazer com ela, pois somos responsáveis pelo que fazemos com ela.
Joy e Jack têm sensações e reações completamente diferentes. Ao conseguir a liberdade, num primeiro momento, Joy é banhada pela alegria da conquista, pelo êxito da esperança. Pela felicidade de ver o curso da sua vida, e, principalmente, a do seu filho, tomar rumos completamente diferentes, com perspectivas boas, com oportunidades que sua antiga vida não poderia em hipótese alguma lhes proporcionar. Mas, logo em seguida, ela cai numa depressão profunda, ficando presa ao passado, ao que ela perdeu, ao que poderia ter feito, à culpa pelo que aconteceu a ela e a seu filho.
Jack, diferentemente de sua mãe, é tomado pelo excitação de conhecer o novo. Podemos ver em seus olhos o deslumbre ao olhar a grandeza do céu, as nuvens, um cachorro. Mas o novo não só deslumbra, mas também intimida, e com Jack não foi diferente. Ele, ao se ver como parte desse todo, agora gigantesco, sente-se intimidado por esse novo mundo. Ele passa a ter dificuldades de se relacionar com outras (novas) pessoas, dificuldades em ter atitudes normais para qualquer um de nós, como brincar com seus brinquedos, passear. Entretanto, nesse novo mundo, ele passa a ter uma grande ajudadora, sua avó. Ela apresenta, paulatinamente, para Jack a vida de verdade, leva-o ao mercado, conversa com ele, quebra as barreiras da intimidação do novo com a arma mais poderosa de todas: o amor.
Quando passa a conhecer melhor o seu novo mundo, ele percebe que é parte sim desse todo, mas que ele não é assustador e segregador, mas apaixonante e agregador.
No fim das contas Joy e Jack experimentam a liberdade e percebem a beleza da vida quando vivida.
Não preciso nem falar se eu gostei do filme.
SUPER-INDICO o filme “O quarto de Jack (Room)”!! Que já se tornou um dos meus preferidos.
FABIANO BRONZEADO
E você, concorda comigo? Discorda? Deixe seu comentário.
Isso é o que acontece com o nosso protagonista. No filme o quarto de Jack temos uma demonstração de que nós somos o reflexo da nossa perspectiva sobre o nosso mundo, pois nossa vida nada mais é do que parte desse todo chamado universo, e, nossas grandes crises de identidade não são fruto de um confronto meramente interior, mas sim, desse confronto interior com a realidade externa, pois, certamente, ela reflete em nossas emoções, conceitos, desejos e atitudes.
No filme o quarto de Jack vemos um conceito de família muito comum em nossa realidade atual: Uma mãe e seu filho. No entanto o panorama em que estão colocados foge de qualquer convenção humana sobre normalidade. Uma simples e corriqueira situação que destrói o futuro de uma jovem. Joy, mãe de Jack, ao tentar ajudar um jovem senhor, é sequestrada pelo mesmo e encarcerada dentro de um quarto. Aqui não temos mais uma amostra de crime, visto que não é essa a abordagem principal do filme, mas temos uma vida que passa a viver como um objeto, um ser que perde sua identidade, ou que forçadamente tem que se transformar. Nesse momento, é necessário lembrar da icônica frase do então Anakim Skywaker, que ainda como uma criança vivendo em meio à escravidão com sua família diz: “Eu não sou um escravo, eu sou gente!”. O que é ser gente? O que é ser humano? O que é ter vida? Essas são algumas das perguntas que essa película te faz pensar.
Joy perde aquilo que é mais precioso que temos: a liberdade. Liberdade essa lutada pelos “rebeldes” que derrubaram a bastilha; liberdade gritada por aqueles atingidos pela Lei áurea; liberdade disputada à faca e balas e banhada a sangue em meio à guerra civil americana; liberdade que fez um grande grupo de negros e brancos caminharem até a cidade de Selma; liberdade sonhada; liberdade que nos fez pintar a cara; liberdade cantada, conquistada, vivida; e, para Joy, perdida.
Você pode questionar: “Por que a liberdade é tão preciosa?”, eu te respondo, porque quando perdemos a liberdade perdemos não só direitos estabelecidos pela nossa constituição, mas perdemos também, e principalmente, nossa identidade.
Sem ela, a mãe do amado Jack passa não mais a viver, mas a sobreviver, e para um sobrevivente sua luta não é por direitos, mas pela vida, pela chance de respirar e comer por mais algum tempo, pela chance de manter o fagulha de esperança ainda acesa. E é isso que ela faz, quando seu algoz, o criminoso que a colocou presa nesse quarto a obriga a ser seu objeto. Ela cede a esse homem, desfazendo-se de todos os seus desejos, conceitos e valores, com o intuito de permanecer sobrevivendo.
Em meio a essa sobrevida ela recebe o seu maior presente, o seu filho, que nasce em meio ao tormento, mas que, como uma das mães mais sensacionais demonstradas no cinema, tenta fazer dessa realidade o mínimo dolorosa para seu filho. É importante mencionar a emocionante história do pai que tem a mesma atitude com o seu filho em meio à segunda guerra mundial, dentro do campo de concentração, no filme “A Vida é Bela”, que nos mostra que a beleza da vida depende da nossa ótica, e que, o melhor da vida é embelezar a vida para outro.
Jack nasce nesse ambiente tenebroso, e, para conseguir seu objetivo de minorar os danos para seu filho, Joy cria uma realidade para seu filho, ensinando-o que o mundo se resumia ao quarto em que eles viviam, e que, aqueles que apareciam na televisão que possuíam eram seres que não existiam de verdade. Então, para Jack, os limites do mundo ele conhecia muito bem, tanto é que se relacionava com o que estava nesse lugar, de maneira a cumprimentar com um bom dia a pia, a privada e outros objetos.
Certo dia, em meio a questionamentos de seu filho, ela percebeu que não seria possível sustentar essa ideia para seu filho, que num dado momento ele questionaria mais, e mais, e ela não saberia responder. Ela percebeu que seria um grande egoísmo de sua parte não tentar a liberdade do seu filho, por mais impossível que parecesse. Que melhor seria tentar do que carregar por toda a vida o sentimento de culpa por não ter tentado, bem como omitido tudo sobre o que ela sabia para seu filho. Com isso, ela resolve tentar.
A tentativa de fuga para seu filho foi extremamente arriscada, pois qualquer detalhe que desse errado poderia trazer consequências terríveis. Foi também dolorosa, pois culminou numa despedida que poderia muito bem ser definitiva. Contudo, a sétima arte pode proporcionar isso para nós, tudo deu certo, e ainda melhor, pois ela também obteve a liberdade.
O que fazer quando conseguimos a liberdade que tanto lutamos para obter. O filósofo Sartre nos diz que “Somos condenados a ser livres”, mostrado que é um grande problema não ter liberdade, mas a liberdade também nos traz o problema de saber o que fazer com ela, pois somos responsáveis pelo que fazemos com ela.
Joy e Jack têm sensações e reações completamente diferentes. Ao conseguir a liberdade, num primeiro momento, Joy é banhada pela alegria da conquista, pelo êxito da esperança. Pela felicidade de ver o curso da sua vida, e, principalmente, a do seu filho, tomar rumos completamente diferentes, com perspectivas boas, com oportunidades que sua antiga vida não poderia em hipótese alguma lhes proporcionar. Mas, logo em seguida, ela cai numa depressão profunda, ficando presa ao passado, ao que ela perdeu, ao que poderia ter feito, à culpa pelo que aconteceu a ela e a seu filho.
Jack, diferentemente de sua mãe, é tomado pelo excitação de conhecer o novo. Podemos ver em seus olhos o deslumbre ao olhar a grandeza do céu, as nuvens, um cachorro. Mas o novo não só deslumbra, mas também intimida, e com Jack não foi diferente. Ele, ao se ver como parte desse todo, agora gigantesco, sente-se intimidado por esse novo mundo. Ele passa a ter dificuldades de se relacionar com outras (novas) pessoas, dificuldades em ter atitudes normais para qualquer um de nós, como brincar com seus brinquedos, passear. Entretanto, nesse novo mundo, ele passa a ter uma grande ajudadora, sua avó. Ela apresenta, paulatinamente, para Jack a vida de verdade, leva-o ao mercado, conversa com ele, quebra as barreiras da intimidação do novo com a arma mais poderosa de todas: o amor.
Quando passa a conhecer melhor o seu novo mundo, ele percebe que é parte sim desse todo, mas que ele não é assustador e segregador, mas apaixonante e agregador.
No fim das contas Joy e Jack experimentam a liberdade e percebem a beleza da vida quando vivida.
Não preciso nem falar se eu gostei do filme.
SUPER-INDICO o filme “O quarto de Jack (Room)”!! Que já se tornou um dos meus preferidos.
FABIANO BRONZEADO
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