Poucos foram os filmes que geraram tanta expectativa no meio crítico cinematográfico e nos cinéfilos em geral quanto O Regresso. Muito disto devido à esperança de que fosse agora a vez de Leonardo DiCaprio empunhar a estatueta; ou devido ao diretor mexicano Iñárritu, o grande vencedor da última edição do Oscar. E é bem verdade que a película em questão trata-se de um exemplar realmente diferenciado. Comecemos falando do apuro técnico, que é de causar inveja.
Há vários planos-sequências de dificílima execução aqui (especialmente o do primeiro confronto entre caçadores de peles e indígenas, bem como a luta final) conduzidos com exatidão, à medida que mostram a barbárie da violência humana.
A trilha sonora do filme também merece ser elogios: ela é bastante interessante e original, se formando através de barulhos dissonantes que aos poucos ganham harmonia e trazem uma sensação de hipnose ao filme.
O trabalho do diretor de fotografia Emanuel Lubezki é magistral, capturando quadros lindos e paisagísticos através de luz natural, além de apostar em movimentos circulares de câmera que iniciam a ação (vemos também aqui a mão do cineasta, saliente-se).
Iñárritu segue impressionando por suas decisões corajosas e segurando uma produção tão problemática, que passou de um extremo do planeta até o outro, devido a questões climáticas.
Falando nisso, a imersão do expectador na natureza selvagem é total em O Regresso, o que também é mérito do mexicano.
Quanto ao elemento humano do filme, os seus atores, é louvável o que o DiCaprio fez neste filme. A vontade de ganhar um Oscar é clara, já que a entrega física é a absoluta. O galã passa o filme quase todo contracenando sozinho e se arrastando pelo chão. Mesmo achando que o queridinho de Martin Scorsese não deveria ganhar o prêmio, é fato que ele fez o possível com o material que tinha mãos.
Tom Hardy também está excelente interpretando um personagem cruel, manipulador e egoísta, mas claramente formado pelos horrores deste mundo. A atuação demonstra uma personalidade inquieta e maluca (a voz do novo Mad Max retrata isso muito bem).
Apesar de todos os elogios prestados até então, a projeção não é perfeita.
Alguns personagens secundários são unidimensionais e estão no filme apenas para preencher espaço.
Pode-se argumentar, por outro lado, que isto não é um problema, tendo em vista que o tema do filme é básico: sobrevivência. Mas isto não é bem verdade.
O filme não tem um propósito bem definido: ora demonstra-se como uma obra sobre vingança, ora sobre o triunfo do espírito humano. Há o elemento narrativo de luta pela sobrevivência, mas existe uma subtrama sobre direitos indígenas (muito interessante, por sinal) e também um foco no relacionamento entre o DiCaprio e o seu filho. A temática central não pode ser diagnosticada ao fim da película.
Ressalte-se aqui que o filme pussui um elemento espiritual e contemplativo (no estilo Malick) que, apesar de ter uma conotação inteligente em alguns momentos, tal como na representação do homem branco através do "vilão" da história, não acrescenta em nada à narrativa, à atmosfera e à linguagem cinematográficas da projeção.
A trama também não é imune aos deslizes. Já ao fim da película, o protagonista toma uma decisão que por si só não é incongruente, mas que, somada à sua conclusão, não tem sentido algum.
Finalizando "o lado o sombrio" da produção, é nítido que o filme poderia ser mais curto, apesar de a longa duração realçar as dificuldades da trajetória do "nosso do mocinho". Chega um momento que cansa, sabe?
A conclusão que pude chegar ao final do longa é a de que, apesar de não ser isento de defeitos, O Regresso é Cinema em excelência. Se o ano da indústria cinematográfica norte-americana não fosse tão bom, o filme do mexicano poderia atingir o status de o melhor da temporada facilmente, o que não é o caso.
ANDRÉ MATEUS
Nota: 9.1

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