domingo, 21 de fevereiro de 2016

CRÍTICA #2 - MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA (MAD MAX: FURY ROAD, 2015)



A primeira vez que tive contato com a franquia Mad Max (no ano de 2015, ao ver o trailer, no cinema, do filme ao qual agora teço esta crítica), pensei logo se tratar de mais uma baboseira caça-níquel criada por Hollywood, só que com uma pegada circense. Eu não poderia estar mais enganado! 


O 4° filme da série criada pelo australiano George Miller é Cinema no nível mais elevado. Temos aqui uma história simples (não simplória) e objetiva, com muito peso narrativo e personagens marcantes, que já abre no meio do fuzuê e que trata de temas sérios, tais como ambientalismo, violência, ditadura, escravidão e libertação feminina da opressão masculina. Tudo isso em meio a um universo maluco (justificadamente, pois poucos são os recursos naturais existentes) e completamente crível (não apenas pelos aspectos técnicos posteriormente abordados neste texto, mas também por expressões corporais e pela linguagem verbal adotada no filme).

Falando nisso, Mad Max:Estrada da Fúria apresenta-nos um verdadeiro mundo cão, cheio de pessoas deficientes e moribundas num estado de miséria muito bem retratado. Aliás, é muito interessante a visão do cineasta ao criar um futuro distópico e pós-apocalíptico para filmes puramente de ação, o que não é comum, já que, no Cinema, o pós-apocalipse é abordado, via de regra, por películas do gênero de terror. A proposta aqui é muito mais verossímil, uma vez que todos num mundo "acabado" querem garantir o que é seu, o que gera conflitos.

Passemos a falar do cara que merece todos os créditos por presentear o Cinema com essa obra-prima: George Miller. O diretor, ao trazer à luz o que fora originalmente concebido em sua mente, mas que o mundo não poderia ver (devido à limitação dos recursos tecnológicos necessários para a realização deste feito cinematográfico), além de criar todo o conceito do filme, segura firme as pontas dessa viagem alucinada e vibrante.

Nesse sentido, o trabalho do australiano pode ser comparado ao que o grande diretor Paul Thomas Anderson fez com o seu Vício Inerente, ou com a grande realização de Michel Góndry, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (um dos melhores filmes de todos os tempos, em minha opinião).

O filme está sempre à beira do colapso, mas a tragédia nunca acontece (para nossa alegria!). A diferença entre a criação do Miller e os filmes supracitados é a de que, enquanto estes poderiam se auto-destruir devido aos roteiros loucos, aquele facilmente "quebraria", nas mãos de diretores menos talentosos, por causa do universo concebido e de uma coisa dificílima que o longa em análise faz tão bem: conduzir a história através da ação selvagem. Ação esta que, ressalte-se, é um exagero; no entanto, criada de forma orgânica e palpável. O expectador compra facilmente o que está vendo!

Ainda comentando sobre as sequências de ação, não há nada quanto a esse aspecto, existente na sétima arte que seja melhor do que Mad Max: Estrada da Fúria. As cenas em que "o pau come" são extremamente bem coreografadas e, em sua grande maioria, grandiosas em seu aspecto geográfico; entretanto, o público nunca fica perdido.

Cabe também ressaltar o uso da câmera lenta no filme, que é irrepreensível e nunca soa forçado, surgindo nos momentos exatos. 

Outra coisa que chama a atenção na obra é que o próprio filme acelera (é, desconheço a terminologia dessa técnica), o que tinha tudo pra dar errado, mas que aqui funciona perfeitamente.

No tocante aos personagens, todos são ótimos e muito bem desenvolvidos. O Max, apesar de falar pouco neste filme, tem muita presença física (graças ao trabalho do Tom Hardy), apresentando-se como um homem enlouquecido buscando sobreviver, mas também um guerreiro das estradas que busca uma causa justa (exatamente como dito no início do longa) e que, aqui, a encontra. O vilão, Imortan Joe, é excelente. Um ditador, que se apresenta como redentor. Um déspota, detentor de um exército, que, embora pouco se expresse verbalmente, é dono de uma estética pavorosa e que "mete medo". Outro personagem que merece ser citado é o capanga Nux, interpretado pelo Nicholas Hoult. O personagem passa por um arco muito bem construído, indo de soldado alienado a alguém que passa a lutar do lado dos mocinhos.

É bem verdade que os personagens masculinos supracitados são ótimos. No entanto, a estrela do filme é a Imperatriz Furiosa. Sim, o Max é coadjuvante na projeção a qual dá nome (o que não deixa de ser uma decisão acertada e até justa, uma vez que o filme trata de emancipação feminina)! Furiosa é forte, física e espiritualmente falando. Sua busca por redenção e esperança é o que impulsiona o filme. Méritos para a atriz Charlize Theron, cujos olhos melancólicos refletem o estado de espírito da protagonista. (Pára tudo!) Aí tu me pergunta: "e tecnicamente, o filme é bom?". Eu te digo: "meu irmão, doido, é do cassete, velho!" 

(Continuando ...) 

A fotografia do filme é deslumbrante. Os enquadramentos capturados são quadros prontos para exposição. O primeiro deles, aliás, já demonstra o quão excelente é a cinematografia da película. Isso porque, além de a câmera estar no lugar certeiro (e parada, para o bem da humanidade), as cores são lindas, saturadas no ponto certo (durante o dia, a paleta é um pouco amarelada; à noite, azulada). 

A trilha sonora é excelente, variando entre música orquestral e eletrônica, com uma pegada tribal. Ela impulsiona a narrativa e surge diretamente do próprio filme. 

A maquiagem, o cabelo e o figurino do filme evidenciam a sujeira, violência e pobreza do mundo retratado, além de caracterizar tão bem os personagens em cena. 

O design de produção é sensacional e minucioso, criando o cenário com uma riqueza de detalhes de cair o queixo. A veracidade do filme parte de que os objetos são criados pra valer (créditos para o diretor, mais uma vez). Os veículos são muito criativos e as locações são precisas para a criação do que se vê na tela. 

Os efeitos visuais, apesar de não serem abundantes e de nunca substituírem a realidade (o que é ótimo), são indistinguíveis do que é real. 

A edição e a montagem são perfeitas aqui. Nada sobra. Os cortes são precisos e nunca excessivos. Aliás, o recurso de montagem utilizado, quando vemos a tela escurecer e acender (pois é, eu não sei o nome), no melhor estilo Pulp Fiction, é muito artístico! 

Finalizando os aspectos técnicos, a edição e a mixagem de som são certeiros. Tudo é perfeitamente audível: "explodiu: se ouviu o barulho; aí alguém atira: ouve-se o som; um personagem grita: você ouve tudo com qualidade". 

Já deu pra entender, né? Concluo esta análise dizendo que Mad Max: Estrada da Fúria é o melhor filme de 2015. Aliás, ele é muito mais do isso: é um marco na história do Cinema! O melhor filme de ação de todos os tempos! E por que não dizer que é um dos maiores exemplares já feitos, independente de gênero? É uma pena que provavelmente não ganhe o Oscar de melhor filme. A academia tem mente fechada e é extremamente conservadora. Fazer o quê, né? Se não for dessa vez que um filme de ação ganhe a principal estatueta, nunca será; porque o que foi atingido por Mad Max: Estrada da Fúria tem nome. Chama-se perfeição.

ANDRÉ MATEUS

NOTA: 10

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