quinta-feira, 17 de março de 2016

CRÍTICA #5 - A BRUXA (THE WITCH, 2016)


Sinopse (retirada do site do Cinemark):
 
Nova Inglaterra, década de 1630. William e Katherine levam uma vida cristã com suas cinco crianças, morando á beira de um deserto intransitável. Quando o filho recém-nascido dela desaparece e colheita falha, a família se transforma em outra. Por trás de seus piores medos, um mal sobrenatural se esconde no bosque ao lado.


A Bruxa é um filme que está dando o que falar. Seja pela repercussão midiática quanto ao medo causado pela película (por exemplo, o escritor consagrado de suspense, Stephen King, afirmou que a projeção o “assustou pra car*ampo”), seja pela aclamação da crítica e do desgosto do público em geral, há muito tempo que um horror movie não causava essa balbúrdia toda quanto esse! E é justificado o alvoroço em cima da obra.

O trabalho de direção do estreante Robert Eggers (que ganhou o prêmio de melhor cineasta no Festival de Sundance) é extremamente meticuloso, dúbio, instigante e intrigante. A técnica com que o longa é conduzido é bastante apurada, com enquadramentos e sequências de saltar os olhos! A atmosfera criada é mais que assustadora: ela tem o poder de te perturbar por dias. Isso porque a junção entre o horror psicológico e o terror sobrenatural da projeção, é realizada com uma quase perfeição.

O roteiro, também de autoria do Eggers, é extremamente simbólico, destituído de convenções e clichês, e parcialmente indecifrável. Ele gera diversos questionamentos e reflexões quanto mais se pensa no filme, além de tratar de temas importantes, tais como religiosidade exacerbada (embora seja menos do que se aponta em muitas análises do longa) e a maldade enraizada na natureza humana.

O elenco está absurdamente soberbo! Todos os atores, inclusive as crianças, estão totalmente investidos em seus respectivos papéis, nos transmitindo uma verdade pungente que estimula dúvidas em nossa mente. A ambiguidade gerada no espectador emana mais das interpretações dos atores do que do roteiro do longa. Ralph Ineson, Anya Taylor-Joy e Harvey Scrimshaw dão um show à parte!

Tecnicamente a projeção também é ótima, com destaque para a fotografia e a trilha Sonora. A primeira é esfumaçada, fria, com uma leve saturação para o cinza, retratando as dificuldades pelas quais os personagens passam; a última é dissonante, magnética, pesada, de arrepiar a espinhada do expectador.

Apesar de todos os elogios, o longa tem dois problemas (e eles são facilmente sentidos por quem está atento). O primeiro está relacionado à vaguidade da história, uma vez que quando o filme acaba, cabe a pergunta: só isso? A trama é densa, mas poderia ser mais enfática na medida da curta duração da obra.

O maior demérito da projeção, no entanto, reside em seu final, que destoa das insinuações e sutilezas criadas ao longo da película, tornando-a mais próxima das inconsistências e falta de inventividade, tão presentes em outros longas do gênero. Tudo se torna explícito e mastigado demais no momento derradeiro do filme.

A Bruxa é um ótimo trabalho de estreia para um diretor. Um terror único, aflitivo, atmosférico, perturbador. Possui defeitos, mas sua autenticidade não será esquecida tão cedo pelos críticos e cinéfilos de plantão. Numa safra de filmes do gênero cobertos de clichês, jumpscares e nenhum conteúdo, é difícil não se animar com um longa tão cru e imersivo quanto ele é. Cinema em estado de pureza!

Nota: 8.6
ANDRÉ MATEUS

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